09 janeiro 2011

gente..

gente..  é povo complicado

termina antes de começar
afasta antes de aproximá
limita antes de acontecer
e foge... com medo de se querê

gente..  é povo esquisito

sai de fino aflito
com nó de vazio preenchido
sapato na mão pra esquecer
e chorar... sem doê

gente..  é povo aquecido

do cheiro que fica
da pele macia
suada mordida
colada... fazendo fervê 


gente..  é povo querido

que se emociona sem perceber
que fala alto e não escuta
que o sol não queima  nem seca
.. só faz vermelhecê. ( )

28 dezembro 2010

aiê oxum

 o dia era de agradecer
toque das águas
aquecer das pedras
presentear das trilhas

o caminho era só de subir
passo em falso atento
sorriso apreciado
chão, som, o sol escondido

um olhar inquietado
curioso
revelado
correspondido

 água viva para refrescar
pra conhecer
agraciar..

o dia era da noite quente
da pintura na tela revelada
do movimento imóvel interpretado
suado

chuva fresca para avivar
pra conhecer
agraciar..
( )

24 dezembro 2010

..de pilha.

..a janela estava aberta, e isso era raro pois a poeira da obra da fachada irritava suas narinas desprovidas de filtros à prova de poeira-fina.
mas o sol estava tão tentador...depois de uma semana de frio, chuva e ausência de luz natural...que a janela se abriu com o consolo de receber, em meio à poeira dos operários desajustados, um foco de brisa...uma faísca de vento...um facho de aquecimento.
em meio ao som ensurdecedor de repiques de martelos, agudos de britadeiras, chacoalhar de pedras soltas caídas ao chão...vinha um som...um som familiar e um tanto quanto desconhecido...um som apropriado de esquecimento conduzido...um som agradável aos seus ouvidos...som bom...só...som.
uma sanfona talvez...tons próximos...palavras frescas...secas...descascadas.
ela arriscou olhar pela janela para procurar de onde vinha aquele som...e, ironicamente, vinha da mesma origem sonoro-poluidora dos operários inoportunos...um radinho de pilha...de pilha.
em meio a toda aquela desordem de gesso, massa e entulhos...parecia que se formava uma serenata para aquela janela...
lixos e retalhos compunham aquele cenário já não mais desconhecido...
era sim...uma serenata...em plena luz do dia...e do calor abafado...e da ausência de músicos e poetas...
só ela e o radinho de pilha...eles se bastavam...
apoiou os cotovelos ressecados no peitoril empoeirado...e contemplou o seu presente imposto pela sua própria imaginação manipuladora. ( )

22 dezembro 2010

romã

o ano passou arrastado e ligeiro..

teve inverno de verão
folha seca de primavera
teve flor que desabrochou
de fina pétala
caule firme
raiz atrevida
folha leve

o ano passou forte e rasteiro..

teve tempestade de furar tempo
brisa fresca pra consolar
teve sol sombra susto escuridão
teve som sonho colo solidão

o ano passou..

teve um, teve dois
teve eu
procurando mim.
teve nós
encontrando sós
teve flor
buscando jardim

passou..

ficou a flor
seguindo
sorrindo assim..
( )

16 dezembro 2010

Era uma vez...

Era uma vez a menina
ela queria mexer o corpo
entender seus limites, pesos, cristas e planos
Era uma vez o passarinho verde
ele queria desenhar cores
lento e forte, leve e contínuo
até ficar grande-alaranjado
Era uma vez dois olhinhos curiosos
vocação, foco e persistência
Era uma vez a maria
clandestina, sorridente, feliz
Era uma vez a má-menina
voz no chão, pés abertos, pesado direto
Era uma vez a aluna
aprendendo a ser atriz
Era uma vez a professora
descobrindo ser feliz. ( )

02 dezembro 2010

BeneDito

Ele disse que suas mãos curam
a energia se propaga
as vibrações se aproximam
a dor vira luz
Ele disse que você pode ser tudo na vida
percorrer seus caminhos
pisar firme no chão
voar sem limites
Ele disse que você receberá calor
o colo para se apoiar
o ombro para chorar
o olhar para sorrir
Ele disse que sua vida não é ilusão
porém a desilusão tomará parte
o vazio estará presente
o amor, por vezes, ausente
Ele disse que você pode vencer
algumas vezes...
menos que o insuportável
mais que o impossível
Ele disse que você deve viver
a desordem dos desenganos
o fracassar dos planos
o limitar dos sonhos
ainda assim, viver
a esperança das horas
o desfrutar do tempo
o lutar do esquecimento
Ele disse que você deve sorrir. sempre. todos os dias. por todas as suas vidas. ( )

24 novembro 2010

dia Seu
















era o dia dela...todinho seu...um ano novo...
resolveu conversar com o mar...sua mãe era daquelas bandas e no seu dia oferecia presentes de povos distantes e povoados aproximados...
mas ela não foi receber presentes...não entendia por que as pessoas esperam ganhar no seu dia...ela não queria ganhar nada...
só queria contemplar...e ao contemplar ganhava mais do que podia ter...
se tornava.
por vezes intuia pensamentos de natureza enfraquecida...tinha medo de sentir pena de uma luz que busca a própria luz em seu maior dia de luz na maior fonte de luz...sozinha.
tinha receio de sonhar sozinha.
o diálogo entre ela e o mar durou uma tarde inteira...o dia foi povoado de espaço preenchido...e brisa leve.
constatou que esse era o maior presente do Seu dia
ela mesma.
voltou pra casa suspensa...
sorriu.
a maresia ocupou o seu quarto e o tempo passou devagar... ( )

18 novembro 2010

passo..

já passou a chuva
o frio
o sono
o choro

já passou o sol
a primavera
a brisa
o furacão

já passou a dor
a guerra
o ódio
o desamor

mas o tempo...

esse custa a passar

a saudade...

essa teima em ficar. ( )

09 novembro 2010

um pouco do muito

perder...
o sono
o tônus
o juízo
o caminho de volta

perder...
você
nós
ele
a saudade sem doer

perder...
a consciência
a permanência
a inconstância
um pouco de si

perder...
o amor
a dor
o pavor
uma tarde de domingo

perder...
e ganhar.
sonhar talvez... ( )

02 novembro 2010

dór

o chão se esconde e você pisa leve
aponta firme o teto móvel, desequilibra no fio flácido
respira o ar abafado, engole o nó atado
chora..
dorme para lembrar dos sonhos reais
acorda para não ouvir os sinos estridentes do peito ausente
permanece intacta, impotente de atitudes impensadas
some..
controla palpitações involuntárias
antecipa dizeres do peito
retarda sentimentos negligenciados
fere..
a si mesma.

28 outubro 2010
















a Lua me achou
iluminou minha noite
e todos os dias

a Lua ficou
ultrapassou suas próprias fases
nova lua crescente lua minguante lua cheia ...

a Lua se encheu de escuridão
sem coelho
sem dragão

a Lua se perdeu
virou estrela
cadente

me perdi. ( )

04 outubro 2010

sem título

tocou a campainha como não era de costume
entrou como um furacão
forte, firme, surdo
juntou todo pouco que tinha
esvaziou todo muito que restava
firme, forte, mudo
apontou meus erros
cuspiu meus enganos
abandonou meus planos
cego, firme, forte
as gavetas foram preenchidas de um vazio incomum
a felicidade ficou suspensa
a b a f a d a
paredes tortas
coloridos opacos
máscaras tristes
m u d a s
a porta fechou
a luz apagou
a maria murchou
a violeta chorou. ( )

16 setembro 2010

Angel


  Mulher de garra
coragem
pulso firme
pé no chão
mãe, esposa, professora, protetora
alma iluminada
questionou o inquestionável
revoluvolucionou o casual previsível
descobriu o corpo de cada um
em grupo
formou multidão
formula opinião
codifica a prática
de praticar o ser
único
intranferível
i  n  d  i  v  i  d  u  a  l
perdeu os seus
multiplicou os nossos
dividiu o eu
em um e outro
espaço aberto
t r i d i m e n s i o n a l
infinito
cotidiano
casual
sistematizou tecnicamente o método do trabalho
anatomia
evolução
ser um ser
apoiado nos ossos articulados de peso
e  s  t  r  u  t  u  r  a
experimentação
ação, aqui, agora
presente
ela vive para mostrar o hoje que vira amanhã todos os dias
pele
punho
mãos que agarram dedos
pai
filho
mãe abençoada
Angel afeta
m  o  d  i  f  i  c  a
reformula formas
transforma nuvens em movimento
movimento em dança
dança em expressão
expressão em arte
arte em gente
gente...em Gente! ( )

14 setembro 2010

A maior história de sua vida: Amor


o roteiro estava traçado
o casamento aprovado

Terno Tênis
Chinelo Corselet
o mais Belo Bouquet

o cenário foi escolhido
o itinerário preferido

desses impossíveis de esquecer

um casal de dois
uma testemunha ocular
e tantos outros presenteados a contemplar

a união se concretizou
uma foto comprovou
o beijo, o laço, o amor

  a Paris abençoou. ( )

13 setembro 2010

suspenso



os pés tocam o chão
mas não conseguem senti-lo

os pés afundam no chão
mas não conseguem respirar

l  e  v  i  t  a  m
mas não conseguem alcançar

os pés respiram
e voltam para o seu lugar. ( )

25 agosto 2010

b i c h o

o bicho acorda
grita
fica cego e se irrita
esperneia
sem porque

o bicho chora
lágrimamarga
seca
transborda
sem saber

o bicho bate
palavras grandes
soca, chuta
fere
sem sentir

o bicho foge
se esconde
dele mesmo
suga
sem querer

o bicho dorme
sonha
pesadelos insanos
infantis
sem acordar

o bicho bom
é malvado
mau doutrinado
mudo
sem predicado

o bicho é meu
é do mundo
bobo inconformado
sozinho acompanhado
sem dor

sem culpado

sem cor

despudorado
desbocado
domesticado
desculpado

meu
eu
o bicho é meu...

não troco nem por um trocado. ( )

08 agosto 2010

P a i

não sei bem seus costumes
suas preferências
sua melhor cor, idade, religião

o acaso logo causou
o teto diferente
um tanto quanto ausente

um pouco de solidão

não sei aonde me perdi
aonde se perdeu
aonde nos ganhamos

nosso (des) elo não foi programado
escolhido
premeditado

vazio (des) ocupado 

mas hoje somos
mais do que ontem
menos que amanhã

a g o r a

quero dizer
o que meu peito precisa
sem memórias perdidas

que minha base é preenchida
de um pouco de mim
e tanto mais de você

que sempre lutou pelo seu
mesmo sem ter pro nosso
nesse incansável conceber

tenho casa, pão, labuta
minha perseverança disputa
um lugar próximo ao teu

posso dizer, meu pai
que de todos percalços dessa vida
sua presença é sempre bem vinda

é importante amar você. ( )

06 agosto 2010

m o y a














ela é um furacão
onde passa deixa brisa
vento quente que gela a espinha
sopro que vem aquecer

ela é vida
seu sangue corre colorido
curtinho, leve, solto
de norte ao infinito

ela é linda
a miragem que não deixa esconder
contínua, intensa, breve
flor que vem florescer

ela é do mundo
a terra é redonda demais
a galáxia extensa de menos
continentes atravessados

ela é saudade
presença ausente constante
um repente num segundo
impossível de esquecer. ( )

14 julho 2010

"mim"



 Todos os dias ela acordava e procurava por eles...mas nunca encontrava.
Escovava os dentes sem  saber a posição certa da escova em relação à gengiva. De tanto não saber, sua boca sempre sangrava.
Sentava na mesa para tomar café, mas o pão estava sempre dormido...o nescau, já misturado.
Esperava o ônibus da escola e sua mochila pesava nas costas...mas ela teimava em não apoiar no chão.
Escutava a professora, e seus ensinamentos padronizados, não se igualavam à sua vida desconexa.
Voltava para casa no fim do dia, com o pretexto consolador de um cansaço exacerbado, para não precisar ouvir a sua própria voz na mesa de jantar.
O dia passava todos os dias, sem nenhuma perspectiva de mudança.
A falta de imagens codificadas era tão grande que ela já quase não enxergava a sua, refletida no espelho.
Em momento algum questionava a ausência que sentia.
Se ateve à sua conformidade e seguiu o curso, arduamente natural, de sua vida artificial.
Eventualmente recebia notícias de uma existência, mas não passavam de informalidades.
Formalmente, a sua opinião e temperamento foram se transformando em casos de ausência, irreversíveis.
A sua ausência estava começando a atingir o limite do suportável...as consequências eram notórias...as reações repulsivas.
Começou a questionar: Por que?
Por que não havia resposta para perguntas tão simples?
Por que não haviam perguntas à altura de uma resposta incoerente...incabível...deprimente.
O descaso tomou conta de sua juventude, e sua fase adulta foi marcada pela fuga dos acontecimentos.
Ela se projetou em lugares, menos frios e, ligeiramente, acolhedores.
Se submeteu a confiar em estranhos sinceros, que eram bem mais confiáveis que os conhecidos ausentes.
Passou anos vivendo em um reino distante do seu.
Incomunicável, inatingível, sorridente, insoletravel...
Percebeu que nunca tivera reino nenhum.
Sua casa era ela mesma. Seu corpo era seu abrigo. Suas palavras, seus cômodos. Seus sentimentos eram aquecimento.
Começou a viver, assumidamente, e agora, propositalmente, só para ela. Só havia uma imagem no espelho: o traçado oco de uma figura sem conteúdo.
Os conteúdos preenchidos de vazio, não eram mais admitidos por sua tolerância.
Ela se cansou.
Quem era ela hoje?
Uma menina, que continuava a traçar sua vida sozinha, continuava não questionando, continuava negando suas possibilidades de garfo e faca na mesa.
Uma atriz, condenada a ser personagem de sua própria vida ilusória e inquestionável.
Uma coadjuvante, buscando diariamente, ser atriz principal de sua própria história.
Uma mulher, cansada de ser ausente de si mesma.
Uma pessoa, buscando a felicidade.
Uma alma, buscando luz. ( )

11 julho 2010

eNamorada

De um abraço
um toque
um desvio de olhar

na multidão acelerada
a mulher embriagada
encantou-se pelo seu andar

o sorriso aberto
um comentário indiscreto
e uma lambida para chocar

poesias clandestinas
flores repentinas
teimosia para conquistar

o casual se tornou real
a dúvida virou problema
a certeza trouxe o dilema

o encontro se encontrou

o povoado virou um
um e dois
e ninguém mais se opôs

tudo perdeu o sentido
quando o sentimento
tomou o seu lugar

a casa colorida se abriu
a flor de pitanga não resistiu
a noite chegou sem a ausência atormentar

os dias demoraram a passar
o hoje virou presente
a solidão esqueceu de se apresentar

o vazio se ocupou
a vira-lata se apaixonou
a violeta se permitiu amar. ( )