17 fevereiro 2011

surdo mudo

eles se entendiam assim
o menino mudo e o cão surdo
a palavra não alcançava
o som se perdia
sem precisar se achar
a comunicação se estabelecia
o alto latido o sereno ouvido
o cão surdo e o menino mudo
se ouviam sem falar
seus olhares sabiam
a cumplicidade crescia
o amor prevalecia
o cão e o menino
se comunicavam sem pensar
se amavam sem saber
e sentiam
o acaso teimou e se encarregou
ensurdeceu o menino mudo
emudeceu o cão surdo
e só eles se entendiam
ninguém mais
ai de quem tentasse
ousasse
sonhasse
formar um trio da dupla
ou um grupo de dois mais
o menino mudo
o cão surdo
eram todo o mundo
acompanhados
só dos dois. ( )

11 fevereiro 2011

m e d i t a r


 

















..tão bom quando a vida te obriga a ficar atenta e a distração te movimenta
o toque é calmo
o passo é longo
o olhar é firme
o desejo é sereno e o objetivo se encontra no tempo
a dor se esquece de sentir
o amor permanece sem pensar
a paixão surge num piscar
o prazer explode antes de esgotar
a lembrança adormece
o sonho enlouquece
a paz estabelece
o sorriso ensurdece, entorpece, estremece, amolece
o querer engrandece
o dia segue sem parar.. ( )

05 fevereiro 2011

matusquelo

..daquele que some sem dar tempo pra pensar
aparece com estrelas pra contar
penetra sonhos
escolhe cores
tem quatro ou cinco parafusos a mais pra esquecer
da solidão
verde aquecida do gelo artificial
fina inexistente do calor proposital
degusta as melhores estações
acalma a voz de quem ouve
estimula risos e sorrisos e gargalhadas sem fim
e faz feliz...a parte de um tanto de mim. ( )


28 janeiro 2011

Querido

veja bem...
não sou menina para forjar um choro
tampouco mulher de esconder
gosto das coisas esclarecidas
deixo palavras soltas no ar
interpretação é ponto de vista
querer menos é de lamentar
o preto pode ser branco e até violeta
mãos e pés podem se chocar
medo faz parte do entendimento
paixão é sentimento que pode esperar
mas o cuidado...é coisa que aprecio em conservar

se for seguir, me chama
se for parar, deixa eu me adiantar. ( )

25 janeiro 2011

a guerra

tenho medo dessa guerra..
que coleciona corpos
aprisiona opiniões
corrói vidas breves em longas torturas
marca o peito  frio, enfraquecido
 essa guerra inconstante..
de ego e pudor e rancor
que transforma sonho em pó
amor puro em lenda sóbria
melodia em ruído de dor..
guerra que emburrece..
embrutece sentimentos
negligencia sensações
transforma flor em fuga
vermelho em preto-acinzentado
e afasta...
quem tanto queria se querer. ( )

14 janeiro 2011

último do primeiro

levantou às seis, como era de costume
colocou o chinelinho azul
deu comida ao pássaro amarelo
comeu o mamão papaia-alaranjado

abriu a janela e respirou o amanhecer
era o seu dia...

recebeu visitas queridas
ganhou votos acolhedores
comeu bolo com refrigerante e amor

sentou na varanda e suspirou o entardecer
era o seu dia..

releu cartas e sorrisos
ouviu som e silêncio
caminhou entre o verde e a saudade

deitou na cama e adormeceu o anoitecer
era o seu dia.
o último
do primeiro. ( )

13 janeiro 2011

nó.

‎..pela desordem do mundo, pelas pessoas que partem, pelas que ficam e sofrem com as partidas, pela ausência de vidência, pelo embrulho no estômago, pelo cansaço do peito, pela esperança desalinhada, pelo pão duro dormido, pelo punho enfraquecido, pela carência de afeto, pela falta de apego, pelo chão seco, pelo trigo vencido, pelo amor não correspondido, pelo soluço constante, pelo susto proposital, pelo excesso de querer, pela falta de porquê, pelo sentimento morno, pelo carinho insosso, pelo jantar sem almoço, pela satisfação burra, pela ignorância nula, pela curiosidade crua, pelo chá amargo de fim de tarde, pela chuva, pelo vento, pelo relento, pelo frio, pelo caos, pelo tapa na cara e pelo descaso pobre da cegueira embrutecida do bicho-homem irracional, que transforma luz fria em sombra quente, que consome seu próprio veneno e morre com a sua própria solidão. ( )

09 janeiro 2011

gente..

gente..  é povo complicado

termina antes de começar
afasta antes de aproximá
limita antes de acontecer
e foge... com medo de se querê

gente..  é povo esquisito

sai de fino aflito
com nó de vazio preenchido
sapato na mão pra esquecer
e chorar... sem doê

gente..  é povo aquecido

do cheiro que fica
da pele macia
suada mordida
colada... fazendo fervê 


gente..  é povo querido

que se emociona sem perceber
que fala alto e não escuta
que o sol não queima  nem seca
.. só faz vermelhecê. ( )

28 dezembro 2010

aiê oxum

 o dia era de agradecer
toque das águas
aquecer das pedras
presentear das trilhas

o caminho era só de subir
passo em falso atento
sorriso apreciado
chão, som, o sol escondido

um olhar inquietado
curioso
revelado
correspondido

 água viva para refrescar
pra conhecer
agraciar..

o dia era da noite quente
da pintura na tela revelada
do movimento imóvel interpretado
suado

chuva fresca para avivar
pra conhecer
agraciar..
( )

24 dezembro 2010

..de pilha.

..a janela estava aberta, e isso era raro pois a poeira da obra da fachada irritava suas narinas desprovidas de filtros à prova de poeira-fina.
mas o sol estava tão tentador...depois de uma semana de frio, chuva e ausência de luz natural...que a janela se abriu com o consolo de receber, em meio à poeira dos operários desajustados, um foco de brisa...uma faísca de vento...um facho de aquecimento.
em meio ao som ensurdecedor de repiques de martelos, agudos de britadeiras, chacoalhar de pedras soltas caídas ao chão...vinha um som...um som familiar e um tanto quanto desconhecido...um som apropriado de esquecimento conduzido...um som agradável aos seus ouvidos...som bom...só...som.
uma sanfona talvez...tons próximos...palavras frescas...secas...descascadas.
ela arriscou olhar pela janela para procurar de onde vinha aquele som...e, ironicamente, vinha da mesma origem sonoro-poluidora dos operários inoportunos...um radinho de pilha...de pilha.
em meio a toda aquela desordem de gesso, massa e entulhos...parecia que se formava uma serenata para aquela janela...
lixos e retalhos compunham aquele cenário já não mais desconhecido...
era sim...uma serenata...em plena luz do dia...e do calor abafado...e da ausência de músicos e poetas...
só ela e o radinho de pilha...eles se bastavam...
apoiou os cotovelos ressecados no peitoril empoeirado...e contemplou o seu presente imposto pela sua própria imaginação manipuladora. ( )

22 dezembro 2010

romã

o ano passou arrastado e ligeiro..

teve inverno de verão
folha seca de primavera
teve flor que desabrochou
de fina pétala
caule firme
raiz atrevida
folha leve

o ano passou forte e rasteiro..

teve tempestade de furar tempo
brisa fresca pra consolar
teve sol sombra susto escuridão
teve som sonho colo solidão

o ano passou..

teve um, teve dois
teve eu
procurando mim.
teve nós
encontrando sós
teve flor
buscando jardim

passou..

ficou a flor
seguindo
sorrindo assim..
( )

16 dezembro 2010

Era uma vez...

Era uma vez a menina
ela queria mexer o corpo
entender seus limites, pesos, cristas e planos
Era uma vez o passarinho verde
ele queria desenhar cores
lento e forte, leve e contínuo
até ficar grande-alaranjado
Era uma vez dois olhinhos curiosos
vocação, foco e persistência
Era uma vez a maria
clandestina, sorridente, feliz
Era uma vez a má-menina
voz no chão, pés abertos, pesado direto
Era uma vez a aluna
aprendendo a ser atriz
Era uma vez a professora
descobrindo ser feliz. ( )

02 dezembro 2010

BeneDito

Ele disse que suas mãos curam
a energia se propaga
as vibrações se aproximam
a dor vira luz
Ele disse que você pode ser tudo na vida
percorrer seus caminhos
pisar firme no chão
voar sem limites
Ele disse que você receberá calor
o colo para se apoiar
o ombro para chorar
o olhar para sorrir
Ele disse que sua vida não é ilusão
porém a desilusão tomará parte
o vazio estará presente
o amor, por vezes, ausente
Ele disse que você pode vencer
algumas vezes...
menos que o insuportável
mais que o impossível
Ele disse que você deve viver
a desordem dos desenganos
o fracassar dos planos
o limitar dos sonhos
ainda assim, viver
a esperança das horas
o desfrutar do tempo
o lutar do esquecimento
Ele disse que você deve sorrir. sempre. todos os dias. por todas as suas vidas. ( )

24 novembro 2010

dia Seu
















era o dia dela...todinho seu...um ano novo...
resolveu conversar com o mar...sua mãe era daquelas bandas e no seu dia oferecia presentes de povos distantes e povoados aproximados...
mas ela não foi receber presentes...não entendia por que as pessoas esperam ganhar no seu dia...ela não queria ganhar nada...
só queria contemplar...e ao contemplar ganhava mais do que podia ter...
se tornava.
por vezes intuia pensamentos de natureza enfraquecida...tinha medo de sentir pena de uma luz que busca a própria luz em seu maior dia de luz na maior fonte de luz...sozinha.
tinha receio de sonhar sozinha.
o diálogo entre ela e o mar durou uma tarde inteira...o dia foi povoado de espaço preenchido...e brisa leve.
constatou que esse era o maior presente do Seu dia
ela mesma.
voltou pra casa suspensa...
sorriu.
a maresia ocupou o seu quarto e o tempo passou devagar... ( )

18 novembro 2010

passo..

já passou a chuva
o frio
o sono
o choro

já passou o sol
a primavera
a brisa
o furacão

já passou a dor
a guerra
o ódio
o desamor

mas o tempo...

esse custa a passar

a saudade...

essa teima em ficar. ( )

09 novembro 2010

um pouco do muito

perder...
o sono
o tônus
o juízo
o caminho de volta

perder...
você
nós
ele
a saudade sem doer

perder...
a consciência
a permanência
a inconstância
um pouco de si

perder...
o amor
a dor
o pavor
uma tarde de domingo

perder...
e ganhar.
sonhar talvez... ( )

02 novembro 2010

dór

o chão se esconde e você pisa leve
aponta firme o teto móvel, desequilibra no fio flácido
respira o ar abafado, engole o nó atado
chora..
dorme para lembrar dos sonhos reais
acorda para não ouvir os sinos estridentes do peito ausente
permanece intacta, impotente de atitudes impensadas
some..
controla palpitações involuntárias
antecipa dizeres do peito
retarda sentimentos negligenciados
fere..
a si mesma.

28 outubro 2010
















a Lua me achou
iluminou minha noite
e todos os dias

a Lua ficou
ultrapassou suas próprias fases
nova lua crescente lua minguante lua cheia ...

a Lua se encheu de escuridão
sem coelho
sem dragão

a Lua se perdeu
virou estrela
cadente

me perdi. ( )

04 outubro 2010

sem título

tocou a campainha como não era de costume
entrou como um furacão
forte, firme, surdo
juntou todo pouco que tinha
esvaziou todo muito que restava
firme, forte, mudo
apontou meus erros
cuspiu meus enganos
abandonou meus planos
cego, firme, forte
as gavetas foram preenchidas de um vazio incomum
a felicidade ficou suspensa
a b a f a d a
paredes tortas
coloridos opacos
máscaras tristes
m u d a s
a porta fechou
a luz apagou
a maria murchou
a violeta chorou. ( )